Mais conectado, produtor ganha rapidez para tomada de decisões

Por Mylene Abud

“Não há mais diferença entre o fluxo de informações nos centros urbanos e nas propriedades rurais.” Quem afirma é Jorge Espanha, presidente da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), com base nos dados levantados pela Pesquisa Hábitos do Produtor Rural, realizada pela entidade. Segundo ele, o produtor rural está plenamente conectado, dispõe das mais modernas tecnologias de comunicação e, com isso, “toma decisões mais rápidas e pode ajustar o seu negócio em um ritmo não imaginado há alguns anos”.

Em sua sétima edição, a Pesquisa, que foi apresentada durante a BeefExpo, no mês de junho, em São Paulo (SP), ouviu in loco 2.835 agricultores e  produtores de animais dos 15 estados brasileiros mais representativos do agro, incluindo a região do MAPITOBA. O objetivo principal das 212 questões foi avaliar como os avanços e as mudanças estão ocorrendo no perfil dos produtores, na adoção de novas tecnologias e em sua relação/envolvimento com as atuais formas de comunicação disponíveis no País.

De acordo com o estudo, desenvolvido pela FNP Informa, a idade média dos produtores rurais é de 46,5 anos. 21% têm curso superior, a maioria com graduação em Agronomia (42%), Veterinária (9%) e Administração de Empresas (7%).

Em quatro anos, a presença feminina em funções de decisão nos empreendimentos rurais saltou de 10% para 31%, e 81% dos entrevistados consideram essa participação vital ou muito importante.

A maior parte dos produtores navega pelas redes sociais e usa o WhatsApp. 96% possuem celular, dos quais 61% têm smartphone – contra 17% registrados na edição anterior da pesquisa (2013).E, também, tem orgulho da sua profissão e se diz confiante no futuro do setor. “O produtor é um otimista e enxerga o futuro de maneira muito positiva. Ele sabe que tem papel importante na produção de alimentos e o representa com muita satisfação”, conta Jorge Espanha, em entrevista que você confere a seguir.

AgroRevenda – Qual o principal objetivo da Pesquisa Hábitos do Produtor Rural, que já está em sua sétima edição?

Jorge Espanha – A Pesquisa Hábitos do Produtor Rural ABMRA foi criada em 1985 pela entidade para ser uma referência ao mercado. É um verdadeiro e atualizado banco de dados do agronegócio brasileiro, que joga luz sobre os produtores, agentes fundamentais do sucesso do campo em termos de oferta de alimentos, produtividade, responsabilidade social e sustentabilidade. Veja que o IBGE não faz o censo agropecuário desde 2006. Assim, a Pesquisa é um estudo amplo, de âmbito nacional, que fornece as informações necessárias para quem atua ou deseja atuar no setor.

AgroRevenda – Dentre todos os dados, qual o que mais chamou a sua atenção?

Jorge Espanha – A conectividade do campo é um tema central. Não há mais diferença entre o fluxo de informações nos centros urbanos e nas propriedades rurais. O produtor rural está muito conectado, dispõe das mais modernas tecnologias de comunicação e, mesmo nas fazendas, mantém-se perfeitamente conectado ao mundo. Com isso, toma decisões mais rápidas e pode ajustar o seu negócio  em um ritmo não imaginado há alguns anos.

AgroRevenda – A presença da mulher no setor (que, aliás, foi tema de nossa  matéria de capa da AR 67), mais que triplicou, passando dos 10% registrados na edição anterior (2013) para 31 %, sendo que 81% dos entrevistados consideram a participação feminina vital ou muito importante. Esse crescimento era esperado?

Jorge Espanha – Esse resultado da pesquisa confirma a nossa expectativa. A mulher está ganhando uma importância impressionante no mundo como um todo e, inclusive, no setor produtivo. Não resta dúvida de que se trata de um percentual bastante consistente, especialmente falando em gestão das propriedades rurais. A mulher é, hoje, maioria nas faculdades de Medicina Veterinária e Agronomia e já está mais presente no dia a dia das fazendas. Historicamente, é uma área predominantemente masculina, mas o olhar feminino contribui, e muito, para a melhoria e a agilidade dos processos.

AgroRevenda – Quais ações a ABMRA promove no sentido de fortalecer o marketing rural antes, dentro e fora da porteira?

Jorge Espanha – Essa é uma pergunta muito ampla. Vou me ater à Pesquisa, que é uma iniciativa de muito valor da ABMRA na medida em que fornece o raio-X do produtor rural. Nosso trabalho também inclui uma série de ações proativas, como mini-simpósios sobre temas ligados à comunicação e ao marketing, apoio a eventos e iniciativas positivas para o setor produtivo. O agronegócio é um campeão de oferta de alimentos e, hoje, o segmento da economia mais importante – 1/4 das riquezas do Brasil saem do campo. Produzimos muito bem, porém reconhecemos que precisamos avançar no marketing, especialmente voltado para a sociedade urbana. O campo precisa levar melhor suas mensagens para a cidade e as pessoas precisam conhecer melhor o agro. É um desafio de várias frentes e que precisa ser vencido aos poucos.

AgroRevenda – Muitos representantes do setor dizem que falta ao nosso agro uma marca Brasil. O senhor concorda?

Jorge Espanha – Concordo. Outros países com muito menos força no campo se posicionam melhor do que nós. Basta uma rápida pesquisa pela internet para ver que há nações que mostram o seu orgulho do setor produtivo. Infelizmente, temos de avançar muito no Brasil nessa área. Somos campeões mundiais de produção. Estamos entre os maiores em soja, milho, café, algodão, cana-de-açúcar, laranja, carnes. Lembro que o agro representa mais de 1/3 das exportações brasileiras e, no último ano, teve superávit de US$ 75 bilhões na balança comercial. Porém, apesar de toda essa força, o agro-Brasil ainda não tem o reconhecimento devido.

AgroRevenda – Como melhorar a percepção dos produtos e serviços gerados pelo agro junto ao consumidor final?

Jorge Espanha – Esse é um desafio-chave. Muita gente das cidades não sabe ou não tem a noção exata do caminho dos alimentos da fazenda até a mesa. Tem aquela história do leite vindo da caixinha e não da vaca e várias outras. Como eu disse acima, o agro é muito forte em termos de produção. Mas, reconhecemos, precisa avançar muito para mostrar essa força aos consumidores finais. As ações são conjuntas e começam pelas instituições oficiais, passando pelas entidades empresariais, dos produtores etc. Esse é um trabalho conjunto. Ações pontuais são realizadas, mas ainda é preciso fazer mais. A ABMRA faz a sua parte.

AgroRevenda – Sobre a exposição dos produtores à mídia, a grande maioria ainda recebe informações via TV aberta (99%), seguida pelo rádio (75%). Mas o acesso à Internet já aparece em terceiro lugar (42%) e a maior parte navega pelas redes sociais e usa o WhatsApp. 96% possuem celular, dos quais 61% têm smartphone – contra 17% registrados em 2013, o que ratifica a sua afirmação de que o campo está mais ligado na tecnologia…

Jorge Espanha – Isso mesmo. O campo é um ambiente tão tecnificado quanto o mundo urbano. Isso está claro nos resultados da Pesquisa. O produtor rural é um usuário contumaz das mídias sociais, como o Facebook, e, também, das ferramentas de comunicação rápida, como o WhatsApp. Isso reforça o que eu disse acima: a agilidade para tomar decisões para os seus negócios.

AgroRevenda – De acordo com a pesquisa, mais de ¼ dos entrevistados (27%) leem revistas e 93% preferem as versões impressas. Em que medida publicações, como a revista Agro Revenda, podem contribuir para melhorar essa percepção?

Jorge Espanha – Um em cada quatro produtores lê revista. E nove em dez desses prefere as edições impressas. É um dado consistente, considerando o momento de mídias digitais e comunicação on-line. Ele mostra que os agricultores e produtores de animais gostam do meio revista e valorizam o produto impresso. O agro talvez seja o segmento que mais publicações tem. Há uma importância histórica nisso. A Agro Revenda atua em um segmento muito específico e importante da cadeia positiva. E tem sua relevância no processo de comunicação entre as empresas (fabricantes e distribuidores). Há muito valor nesse trabalho.

AgroRevenda – 91% dos entrevistados têm orgulho de ser produtor rural. Segundo a pesquisa, qual a imagem do produtor com relação ao futuro da atividade agropecuária no Brasil?

Jorge Espanha – O produtor rural é apaixonado pelo que faz. E tem muitos motivos para isso. É preciso realmente ter orgulho do que se faz para lidar com a agricultura e/ou a atividade animal 365 dias por ano. Não tem feriado, não tem férias, não tem tempo ruim. Nesse cenário, o produtor é um otimista e enxerga o futuro de maneira muito positiva. Ele sabe que tem papel importante na produção de alimentos e o representa com muita satisfação. O Brasil tem um papel fundamental na estabilização do mundo, garantindo a segurança dos povos através da oferta de alimentos, e o produtor rural tem grande responsabilidade nisso, conforme as palavras do ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.

AgroRevenda – Qual a sua percepção como presidente da ABMRA? O momento desafiador atravessado pelo País é de otimismo para o setor?

Jorge Espanha – O agronegócio e o País como um todo enfrentam um momento bastante desafiador. Porém, assim como o produtor rural, eu sou um otimista. O Brasil é muito grande. Produz 230 milhões de toneladas de grãos, além de 30 milhões de t de proteínas animais. Congrega cinco milhões de propriedades rurais, representa 1/4 do PIB. E somos 210 milhões de consumidores. Temos muita força e vamos superar, juntos, as adversidades.

O agronegócio e o País como um todo enfrentam um momento bastante desafiador, pois temos uma crise política e econômica. Porém, assim como o produtor rural na pesquisa, sou por natureza um otimista. O Brasil Agro é muito grande, líder em muitas culturas e em exportação. Produzimos mais de 230 milhões de toneladas de grãos, além de 30 milhões de t de proteínas animais. Congregamos mais de cinco milhões de propriedades rurais, representando 25% do PIB diretamente. E temos, ainda, 210 milhões de consumidores. Temos muita força e vamos superar, juntos, as adversidades. O mundo e os brasileiros continuarão demandando alimentos e o crédito deve ser facilitado para o produtor. Os bancos deveriam mudar a suas posturas quanto ao crédito ao consumo e, gradativamente, reduzir os juros para a população, impulsionando o consumo de alimentos. Só assim garantiríamos a demanda aquecida e o crédito devidamente controlado dentro do modelo sustentável de acesso aos alimentos e de consumo de insumos do agro.

*Entrevista originalmente publicada na revista AgroRevenda